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SOBRE NATAL E DESILUSÕES

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Quando eu tinha seis anos de idade, meu primo – dois anos mais velho – me contou que Papai Noel não existia. Era véspera de Natal, dia 24 de dezembro e eu lembro que toda a minha família estava na casa da minha avó comemorando. O cenário era o mesmo de outros Natais – o presépio montado na mesinha da sala e a árvore decorada com luzes amarelas e miniaturas de renas e trenós. Todos os mais velhos sentados participando da ceia. Todos os mais novos esperando pela troca de presentes.

Eu era o que mais esperava. Estava ansioso. Havia duas semanas que tinha escrito a cartinha para o bom velhinho e nela exigia o brinquedo do Batmóvel e uma camisa da Seleção Brasileira. O ano inteiro havia me comportado. Fiz meus deveres de casa, fui dormir antes das dez da noite e briguei pouquíssimas vezes com minha irmã mais nova. Por isso, eu tinha certeza que em instantes o Papai Noel iria entrar pela porta e, com aquele seu jeitão carismático e bondoso, me presentearia da mesma forma como sempre fez.  Então como ele poderia não existir? Quais eram as chances?

Eu disse o que pensava para o meu primo e ele apenas riu, como se eu fosse o garoto mais ingênuo do mundo. Só que em menos de vinte minutos, aconteceu o que eu já sabia que aconteceria. A campainha tocou e aquele homem vestido de vermelho apareceu. Barrigudo, com barba branca e um enorme saco atrás das costas – era o Papai Noel. Até hoje lembro da imagem. Ele entrou na casa olhando para mim e proclamou em alto e bom tom: Ho-ho-ho!

Eu olhei para o meu primo e o alertei: “Viu só! Eu falei que ele existia.”

E não perdi tempo. Na mesma hora saí correndo e fui dar um abraço bem apertado no Papai Noel. Mas, antes de chegar até ele, olhei com bastante atenção e percebi: Papai Noel parecia muito com o meu avô Laerte. Os olhos eram verdes, na mão esquerda havia a mesma cicatriz e os dois  nunca estavam juntos na mesma hora, no mesmo lugar.

“Vovô?”, eu perguntei. E Papai Noel apenas sorriu e passou a mão na minha cabeça.

E então eu não consegui esconder a decepção, a raiva, a tristeza. Saí correndo chorando e me tranquei na salinha onde ficava o piano. Minha família inteira veio tentar me consolar, dizendo que era normal, que eu compreenderia com o tempo. Mas não adiantava. A partir daquele dia eu não acreditava mais em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa ou Fada dos Dentes. Eu não acreditava mais em nada.

Eu não acreditava mais em ninguém.

CAIXA POSTAL (PARTE II)

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“Você ligou para Ana Dantas. No momento não posso atender. Favor deixar sua mensagem após o bip”, e então segue o toque da caixa postal. 

João Paulo, ainda na linha, não sabia se desligava ou não. Queria jogar pra fora o que tinha guardado dentro de si por muito tempo, mas dizer o que tinha pra dizer não era digno para um telefonema, muito menos para a caixa postal de sua ex-namorada. Pensou em desligar. Voltou atrás. Antes de perceber, já estava fazendo o que tanto temia. 

“Ana. É o João aqui. Recebi a tua mensagem e, olha, vou ser sincero contigo, fiquei bem surpreso quando escutei você no meu correio de voz. Fiquei feliz de verdade. Meu Deus! Quanto tempo fazia que a gente… que você… que eu… Bom, deixa pra lá”, ele ri, mas retoma o ceticismo de forma breve. “Ana, as coisas mudaram de um tempo pra cá. Você sabe. Você viu. E mesmo que eu ainda sinta a tua falta – e sinto bastante – não dá pra apagar as coisas que aconteceram no passado. Como eu vou saber se daqui a dois meses você não vai mudar de ideia novamente? Eu te pedi em casamento e você disse não. E o que eu podia fazer, Ana? O que? Depois disso eu tomei uma decisão. Fui seguir minha vida sem você. E agora que tudo já está voltando a se alinhar e as coisas estão dando certo, você me liga e vem falar que errou, que voltou atrás e que quer ficar comigo? Isso não é justo! E desculpa, Ana, mas não vai dar. Entre nós, acabou.”

João Paulo desliga o telefone. Quando se dá conta, sua mão está tremendo e seu coração bate acelerado. Ele está nervoso. Não sabe se falou o que falou pelo calor do momento, ou se realmente sente aquilo. Vai até a janela, respira fundo. Pensa em Ana. Depois tenta pensar em Thais, sua atual namorada, e que não pode ser injusto com ela. Mas não dá, ele percebe. Seus pensamentos não conseguem fugir da ex. Ana. Ana. Ana.

João Paulo sente a vontade de ligar uma outra vez, quer pedir desculpas. Na verdade, quer voltar no tempo e apagar tudo o que disse. Ele quer Ana de volta e sabe disso. Num ímpeto, decide de ir até a casa dela e olhá-la nos olhos. É isso mesmo o que quer, ele pensa. É isso mesmo o que vai fazer. Não dá pra negar seus sentimentos. Rapidamente, então, ele vai até seu quarto, veste uma camisa branca de botão, pega a chave do carro e corre em direção a porta, mas, antes que possa deixar seu apartamento, o telefone toca outra vez.

“Ana?”, ele atende.

“O que?”, a voz fala do outro lado da linha. “Amor, sou eu, a Thais. Estou te ligando pra falar que eu pensei na sua proposta. Pensei muito. Pensei com carinho. E sim, João Paulo, eu aceito.”

CAIXA POSTAL (PARTE I)

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Ela acendeu o cigarro e deu um trago forte. Tossiu. Havia mais de três anos que não fumava – e não sabia se estava fazendo isso agora pra acalmar os seus nervos ou se era pra ficar ainda mais nervosa consigo mesma. Por um momento, descansou o cigarro em suas mãos e andou pela sala de seu apartamento sem nenhum objetivo. Foi até a janela e olhou a movimentação da rua. Voltou a andar de um lado para o outro e finalmente sentou no sofá. Deu mais um trago no cigarro, só que dessa vez não tossiu. Pensou se deveria fazer o que estava pensando em fazer. Num ímpeto, se cansou de ficar parada, foi até o telefone e discou o número de João Paulo.

Um toque. Dois toques. Antes do terceiro toque, ela desligou. O que iria dizer caso ele atendesse?, pensou. 

Tragou o cigarro novamente. Antes de continuar fumando, se revoltou e jogou o cigarro e o maço inteiro no lixo. Pegou o telefone e discou novamente. 

O telefone tocou, tocou, tocou. Ninguém atendeu. Caixa postal. Tentou mais uma vez. Caixa postal. Tentou a terceira. A mesma situação. Ela não se aguentou e saiu falando o que dava na cabeça assim que ouviu o Biiip.

“João Paulo, sou eu, a Ana”, ficou um tempo na linha sem falar nada. “Sei que já tem tempo que nós não conversamos. Acho que já fazem uns quatro meses desde a última vez. E, sabe, depois do que aconteceu, eu até entendo a sua razão de querer me evitar – e, pensando bem, se invertêssemos os lugares, acho que faria a mesma coisa. Mas, olha, estou te ligando porque quero te ver. Eu me arrependi do que disse pra ti na última vez. Se pelo menos eu pudesse voltar no tempo… Você nem sabe disso, mas teve uma vez que eu passei no Iporanga e vi você saindo do cinema com uma garota – acho que é Thais o nome dela, não é!? Sei disso porque ela fazia inglês lá na Cultura. Mas nossa, João! Me deu um aperto no coração quando vi vocês dois juntos. Senti que tinha perdido você pra sempre, que eu tinha deixado ir embora a única pessoa que realmente amei. Eu ainda sinto isso, às vezes. E me arrependo todo dia por não ter aceitado me casar com você. Eu fui tão imatura. Me coloquei em primeiro lugar e pensei só nos meus problemas – que eu ainda nem tinha terminado a faculdade, que eu ainda queria fazer uma pós nos Estados Unidos. Como eu fui idiota, né?! Você, me pedindo em casamento, e eu falando não?! Me desculpa… Esse tempo longe me fez perceber o quanto eu preciso estar ao seu lado. Eu mudei. Acredita! Hoje estou mais madura e sei o que realmente importa pra mim”, ela fez mais uma pausa. Calculou todas as suas palavras. Respirou. Disse: “João Paulo, você é o que realmente importa. Volta pra mim. Eu te amo!”

VINGANÇA

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“Preciso de ajuda! Eu quase matei um cara hoje!”

Foram essas as primeiras palavras que Leonardo disse quando apareceu lá em casa, na madrugada do último sábado, aparentando estar terrivelmente abalado e sem saber o que fazer. Ele vestia um terno escuro com risca de giz, notei que sua camisa branca por baixo tinha algumas marcas de sangue e que seus olhos piscavam muitas e muitas vezes – como se ele quisesse acordar para uma realidade diferente a cada piscadela. Meu Deus! Com aquela imagem do meu amigo na minha frente, não tinha como duvidar. E mesmo pensando que ele nunca faria uma coisa dessas no decorrer de sua vida, eu sabia que suas palavras estavam cheias de verdade.

Deixei ele entrar na minha casa. Fui até a cozinha e peguei um copo d`água. Ele se apoiou na mesa da sala, nem deu um gole na água e também nem quis se sentar no sofá.

“Não sei o que deu em mim. Como fui capaz de fazer isso?”, ele dizia olhando para o infinito, depois para as próprias mãos. “Como? Me responde: Como eu pude ser capaz de apontar a arma para uma pessoa?”

Não falei nada. Não queria botar pressão.

“Foi por impulso”, ele continuou. “Foi no calor do momento. Eu tinha saído do casamento do meu primo e, quando eu já estava quase entrando no carro, um cara apareceu e trombou em mim. Você sabe – esse tipo de cara fortão, marombeiro mesmo, que só sai na rua pra arranjar confusão – Ele ficou me provocando, falando que eu era um merda e coisa e tal. Tava louco pra que eu falasse alguma bobagem, assim ele teria um motivo e poderia me dar uma surra na frente dos amigos dele. Mas eu não fiz nada – você sabe como eu sou – fiquei lá quietinho, e quando ele percebeu que eu não ia fazer nada mesmo, meteu a mão na minha cara e partiu pra cima. Porra! O que eu podia fazer? Também não sou nenhum idiota. Não ia ficar apanhando de trouxa e eu sabia muito bem que tinha um revólver debaixo do banco do carona. E se o revólver estava lá, veja bem, é porque algum dia eu ia usar. Ah, meu amigo… E não é que era esse o dia?! Fui até lá, peguei o revólver e não perdoei. Apontei a arma pra cabeça do filho-da-puta e fiquei esperando ele dar o próximo passo. Eles e os amigos dele ficaram todos em choque. Acredita que o imbecil que me bateu até molhou as calças? Haha. Depois veio pedindo desculpinhas e falando pra eu ter piedade. Eu tive. Mas quer saber? Pensando bem agora, eu devia ter metido bala nele. Nele e nos amigos dele também. Marombeiros filhos-da-puta! Merecem todo o meu ódio e toda a minha vingança.”

Leonardo desencostou da mesa e, sem mais nem menos, foi logo saindo pela porta.

“Espera aí!”, eu disse. “Onde é que você vai?”

Ele olhou pra mim. Olhou fixamente. Abriu um sorriso e foi, sem dizer nada. Mas a quem eu estava querendo enganar com as minhas perguntas? Palavras não eram necessárias. Eu sabia exatamente onde ele estava indo.

A TRÁGICA HISTÓRIA DA KOMBI

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Em 2004, no auge dos seus quinze anos de idade, uma série de acontecimentos marcaram a vida de Fernando. Em um intervalo de tempo menor que duas semanas, ele havia perdido sua virgindade com a vizinha Leila, três anos mais velha que ele, passado de ano no colégio (o mesmo ano que havia bombado duas vezes por causa de um boletim mais vermelho que o próprio sangue), viajado para o Rio de Janeiro e aprendido a dirigir numa Kombi. De todos esses fatos, o mais importante, com certeza, fora o último.

Fernando era apaixonado por carros. Seu quarto era repleto de posters, miniaturas e revistas sobre automóveis. Quando ele ouvia o barulho de um motor quase chegava ao orgasmo. Sem brincadeiras. Desde criança ele possuía essa obsessão e, então, quando sentou no banco do motorista pela primeira vez e guiou a Kombosa por doze minutos exatos, seu coração explodiu de felicidade.

Desde então a vida dele mudou. Naquele fatídico dia em que aprendeu a dirigir, Fernando absorveu um amor verdadeiro pelas Kombis e não largou mais. Ele comprou livros, estudou a história do automóvel. Realmente se fixou naquele veículo. E esse era o grande problema da relação entre a Kombi e Fernando: a obsessão.

Quando seu pai João – um sindicalista de postos de combustíveis – no começo desse mesmo ano chegou em casa com a última notícia das montadoras dizendo que a Kombi iria parar de ser fabricada, o impacto causado em seu filho foi devastador. Na mesma hora, os olhos de Fernando se encheram de lágrimas e ele ficou dois dias inteiros chorando, sem colocar um único pedaço de comida na boca.  Mas logo teve ideias que poderiam mudar esse rumo. Assim, como solução para resolver esse grande problema da humanidade (pensava ele), começou a mandar cartas para a empresa alemã, fazer protestos (sozinho) para chamar a atenção da Volkswagen, elaborar petições online e tentar comover as pessoas.

Nada resolveu. A Kombi estava com seus dias contados e era pra valer. Assim, vendo o fracasso diante de si, Fernando tomou uma decisão e foi bem claro com seus familiares: “Vou me matar!”, ele disse. “Se dentro de alguns anos a Kombi vai ser extinta das ruas, não há motivos para eu continuar vivendo.”

Nenhum de seus familiares acreditou. E nem havia motivo para isso mesmo. Fernando não iria cometer suicídio. Afinal, quem se mataria por uma Kombi?

Pois é… Fernando não se matou. Mas, pensou ele, essa seria uma causa muito nobre para o retorno das Kombis.

NUNCA+NÓS2

Image“Por que você está fazendo isso comigo? Por que?”, ela perguntou entre soluços, ainda chorando, olhando para mim numa imagem de uma garota decadente, com lágrimas escorrendo pelo rosto e sem conseguir acreditar no que tinha acabado de escutar.

Eu, por outro lado, continuei quieto e não a respondi. No fundo, ela já tinha a minha resposta. Ela sabia exatamente o que estava acontecendo ali entre nós dois. Desde que começamos a sair (ou seja lá qual é rótulo para aquilo que estávamos fazendo), eu já havia deixado claro para ela: Eu não me envolveria. Nunca havia me envolvido antes e não seria agora que as coisas iriam mudar. Meus relacionamentos sempre foram superficiais. E se eu percebesse que, em algum momento disso tudo, ela estivesse me deixando vulnerável, eu iria embora. Então, por odiar ser o cara do “eu te avisei” e não ter que repetir exatamente o que havia dito no passado, achei melhor ficar calado.

Mas ela continuou insistindo…

Com sua cabeça deitada no meu peito, suas lágrimas molhando minha camisa e sua maquiagem borrando seus sentimentos em mim, ela vinha com seus beijos que subiam meu o pescoço e tentava alcançar meus lábios. Ela ainda tinha esperança. Achava que podia tirar alguma coisa de mim. Mas eu me mantive firme, nada iria mudar – até que ela também percebeu isso. Então saiu perto de mim, tomou seu espaço, respirou e disse:

“Tudo bem. Eu vou ficar bem. Se quiser ir, vai!”

E nessa hora, por incrível que pareça, me desestabilizei. Ir embora era o que eu queria fazer desde o começo, mas naquele momento fiquei meio inseguro. Será que eu queria mesmo deixá-la? Por que eu não poderia parar de ser um idiota e tentar dessa vez, pelo menos dessa vez? E então, diante de tudo isso, consegui raciocinar.

Levantei, fui até ela e a beijei. Mas só dei um beijo. Um último beijo. Porque depois disso, virei as costas, abri a porta e fui embora.

INVERNO

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Inverno,

Desculpe-me a sinceridade, mas acho que deixei de gostar de você. Estou aqui agora, fumando o meu cigarro, escrevendo essa carta e tentando encontrar motivos pra te explicar o que aconteceu. Mas, se quer saber, eu também não sei. Não faço a mínima ideia do por que não te quero mais na minha vida.

Antigamente nós nos dávamos tão bem. Eu gostava tanto de você que contava os dias pra te ver chegar. Mas agora isso mudou. Você não faz mais falta. E de uns meses pra cá, passei a me sentir tão fria, tão seca, tão distante. Minha vontade nesse momento era só de aparecer uma vez por ano pra te dar um oi. Nada mais que isso. Um simples e singelo e educado “oi”.

Mas não se sinta mal, Inverno, você tem que entender… Eu aprendi muito com você.

VINIL

VINILA loja de discos do Seu Alfredo ficava aqui perto de casa, lá no cruzamento da Rua Conceição com a Dom Casmurro. Não se tratava de uma loja grande, tampouco era chamativa como essas big stores que existem por aí, mas com certeza era uma das lojas mais legais em todo o universo.

O motivo de eu gostar tanto de lá era simples: Se eu estivesse procurando vinis importados e de qualidade como os do Jimi Hendrix, Led Zeppelin, The Doors ou qualquer outro artista renomado, provavelmente encontraria por lá. Se quisesse alguma coisa mais underground e independente, podia ter certeza, o Seu Alfredo não decepcionaria. Só pra ter uma noção, foi lá onde descobri muitas das minhas bandas preferidas. Minor Threat, Black Flag, Descendents – tudo indicação do Seu Alfredo. O cara realmente entendia do assunto.

Mas é uma pena…

No ano passado, uma coisa muito ruim aconteceu. Foi voltando do meu curso de Petróleo e Gás numa quarta-feira qualquer que descobri que a loja não iria mais abrir. No dia, lembro que achei aquilo muito estranho. Não iria mais abrir? Como assim? Eu sempre passava por lá e, até mesmos nos feriados o Seu Alfredo mantinha as portas abertas. Então dessa vez eu não entendi. Aquilo não era normal. Eu sabia que não. Até que chegou o dono da padaria ao lado e me confirmou:

“Cê tá sabendo o que aconteceu com o Alfredo?”, ele perguntou. Nem tive tempo de responder que não, pois o padeiro já foi logo embalando: “Na noite passada dois trombadinhas filhos da puta apareceram aqui pra assaltar a loja. Apontaram a arma pra cabeça do Seu Alfredo e pediram todo o dinheiro do caixa. E cê acha que o Seu Alfredo ia ceder? Nananinanão. O Seu Alfredo não deu um centavo se quer praqueles safados. Se manteve firme como um touro.”

Resultado da história: Seu Alfredo levou um tiro no meio da testa.

Quando o padeiro me disse aquilo, eu fiquei sem reação. Que tragédia! Que fatalidade! Ele era um homem tão bom, tão prestativo e tão atencioso. Agora não era mais nada, somente uma lembrança. E o mais louco é que quando essa lembrança me aparece, eu, e tão somente eu, fico em silêncio e deixo o vinil tocar.

ANALISANDO VOCÊ

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Ó, garota…

Eu te olho deitada na minha frente e isso parece tão perigoso agora. Eu fico analisando você, por inteira. Teus olhos são silenciosos, mas ao mesmo tempo são selvagens e entregam todas as suas intenções. Você respira devagar, mas teu corpo está elétrico. Eu posso sentir que você quer logo que eu vá adiante e quer logo que eu chegue mais perto. Você até mesmo solta suas mãos no ar e pede pelo meu toque.

“E que privilégio”, eu penso comigo. 

Fitando a sua imagem divina eu consigo ver o quanto sou vulnerável. Minha vontade real é de ir correndo até você, beijar os teus lábios e passear pelo teu corpo. Mas eu me controlo. Primeiro quero tirar sua roupa devagar, assim como você também quer, somente para eu poder apreciar os seus contornos. E sentindo a tua pele, quero sussurrar ao seu ouvido e desenhar todo o universo em você.

Mas calma! É preciso ter cautela.  

Até que você olha direto para mim e diz com a voz baixa e ofegante:

“Vem!”

 E eu vou.

VIRA-LATA

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No ano passado, andando pela Rua Bartolomeu, ali no centro da cidade, vi um cachorro bem pequeno revirando latas de lixo e procurando alguma coisa pra comer. Dava pra notar que estava faminto e que há tempo não se alimentava adequadamente. Seu corpo estava magro, sua aparência era exausta. O pobrezinho não conseguia nem andar direito devido à alguns ferimentos em sua pata direita. Ele cambaleava, ia de lixo em lixo andando com dificuldade. E o pior de tudo é que não tinha sucesso . Não encontrava comida de jeito nenhum. Eu olhava pra ele e sabia que tinha que fazer alguma coisa, sei lá, qualquer coisa. Precisava ajudá-lo de alguma forma, sabe? Só não podia deixar ele ali, abandonado e faminto e perdido no mundo.

Foi naquele momento então que decidi: Eu iria adotá-lo.

E o engraçado dessa decisão foi que me fez pensar… Durante toda a minha vida eu nunca tinha feito algo de importante para alguém. Não doava minhas roupas velhas, nunca tinha dado brinquedos para menininhos carentes e o Criança Esperança que fosse pra puta que pariu! Definitivamente eu não era o cara que ajudava as pessoas. Nunca tinha feito algo que valesse a pena se glorificar. Não mesmo. Mas então, naquele momento, olhando para aquele cachorro, eu sabia que iria fazer a diferença na vida dele. Talvez ele não seria o animal de estimação mais feliz, o mais amado, mas pelo menos teria um lar e um pouco de conforto. E aí eu fui lá, tirei ele das latas de lixo e levei ele pra casa.

Hoje, um ano depois, eu ainda não dou minhas roupas velhas e ainda quero que o Criança Esperança se foda. Mas hoje, com todas as letras, eu posso dizer: Vira-Lata é sim o cachorro mais feliz, e ele é sim o cachorro mais amado. E enquanto a mim, posso dizer: Encontrei meu melhor amigo numa lata de lixo.

PAULISTALISMO

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Quarta feira. Cinco e quinze da tarde. Marcelo estava sentado de frente ao computador de sua empresa. Ele tinha acabado de escrever um e-mail para a sua contabilidade no qual procurava saber quais documentos ambientais precisava providenciar em casos de fiscalização, e agora estava vendo como fazia pra doar dinheiro para uma ONG lá da Índia que combatia a exploração sexual de garotas menores de idade.  No meio de tudo isso, seu celular vibrou. Era uma mensagem de texto. Ele desviou sua mente do trabalho e de sua caridade um pouco e foi ler o que era.

“E AÍ, CELÃO, TRANQUILO? BORA PAULISTA HOJE NÉ?!”

Ele quase havia esquecido! No dia anterior, tinha combinado com seu primo Lucas que os dois iriam participar do protesto que estava rolando nas ruas de São Paulo. Eles nem andavam de ônibus, nem se quer sabiam qual era o preço cobrado antes dos R$3,20. Havia sete anos que Marcelo andava de carro e Lucas sempre estava pra lá e pra cá com sua moto. As altas tarifas cobradas no transporte coletivo nem iriam interferir em suas vidas. Pra falar a verdade, nunca perceberiam como o preço era abusivo se as conversas proletárias não chegassem aos seus ouvidos. Mas quando um de seus amigos explicou sobre a onda de protestos, eles decidiram participar. Por mais que não tivessem nada a ver com o assunto, aquela era uma chance de mostrar para as “autoridades” que brasileiro não é burro, e que a população sabe sim lutar pelos seus direitos. Aquela visão de marionete do governo até podia estar engasgada, mas logo seria cuspida pra fora. Então,assim que leu a mensagem de seu primo no celular, Marcelo abriu um sorriso e respondeu que sim, que os dois iriam se encontrar assim que ele saísse da empresa.

Quando o relógio apontou seis horas da tarde, Marcelo largou todos os seus assuntos resolvidos e não resolvidos e foi encontrar com Lucas. Ele fechou a porta do seu escritório, deu tchau para seus empregados e foi andando até a Avenida Paulista, onde encontraria com seu primo de frente a uma padaria. Ele foi com pressa, ansioso com o que estava prestes a ver. E logo cruzando a segunda esquina, esbarrou com Douglas, um cara que tinha conhecido dias atrás por intermédio de sua namorada.

“Fala Marcelão, como cê tá?”, Douglas disse quando se cruzaram. “Tá indo pra onde?”

“Tudo bem, tudo bem”, Marcelo respondeu. “Eu tô indo lá pra Paulista com meu primo. Nós vamos participar do protesto.”

E no momento que Marcelo disse isso, um breve silêncio se fez entre os dois. Douglas tentou captar se ele estava sendo irônico ou não e,quando percebeu que não, deu uma risadinha desconcertante e fez sinal de negação. Na cabeça dele, Marcelo era um vândalo, e não valia a pena perder o tempo dele conversando com vândalos.

Douglas nem se quer se despediu. Com uma atitude rude, virou as costas para Marcelo e seguiu para a sua casa. E no caminho todo ele foi pensando que Marcelo era um caso perdido, um louco, um desajustado. E que as pessoas íntegras e corretas faziam exatamente como ele:

Chegavam em casa, preparavam um sanduíche de mortadela, sentavam no sofá e ligavam a TV.

B.GIACHETO

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É engraçado olhar pra trás agora e ver como as coisas aconteceram entre nós. Quando eu te conheci, não estava procurando por um relacionamento sério (e pra falar a verdade, um relacionamento era a última coisa que eu queria naqueles tempos). Mas você tinha aparecido na minha vida como um anjo perdido e… Bem, o que eu podia fazer? Você, uma linda ruivinha de pele branquinha que, além de toda a beleza, conseguia conversar e entrar na mesma sintonia que eu. Você ouvia minhas ideias malucas, me fazia rir com as suas e a gente tinha os nossos próprios assuntos. Aliás, a gente sempre teve o que é só nosso – a nossa maneira de falar, a nossa maneira de ser, a nossa maneira de sentir. Nossos relógios sempre funcionaram bem, mesmo com os ponteiros quebrados. E é assim o jeito que a gente se completa.

Mas se quer saber, não sei dizer ao certo quando ou como isso foi acontecer, ou por que foi acontecer. Só sei que aconteceu. De um momento para o outro eu percebi que meus sentimentos estavam todos bagunçados, que tudo estava de cabeça para baixo. Eu percebi que precisava de você ao meu lado, sempre. E aí eu me dei conta que minhas certezas não eram mais certezas, que minhas prioridades não eram mais prioridades e que meus dias não eram mais os mesmos, e possivelmente nunca mais seriam. O um havia se tornado dois, o “eu” havia se tornado “nós” e aquela utopia de pessoa certa não era uma utopia.

Culpa sua! Você fez isso comigo. E o pior de tudo é que você nem se quer pediu licença, nem bateu na porta da frente… Você simplesmente foi entrando, sabe? E eu te amo por isso!

METEOROS, TUBARÕES E VEGETARIANISMO

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Melvin pegou o telefone. Tirou de seu bolso um cartão. Discou o número e esperou na linha. Trim! Trim! Trim!! Alguém atendeu.

“Essa é a linha de ajuda do Consultório Psiquiátrico Dallas. Aqui é Nancy falando. Em que posso ajudar?”

“Olá, Nancy! Oi, prazer, meu nome é Melvin, e, mmhmm, eu sei que isso vai parecer meio estúpido agora, mas, mmhmm, não parecia antes e, meu Deus! Como vou poder lhe explicar isso?  Bom, lá vai, é o seguinte, saca só: Eu estou com umas coisas bem doidas na minha cabeça. Sabe, Nancy, você já ouviu falar que um meteoro enorme está vindo na direção da Terra? E você já ouviu falar que, ou melhor, você sabia que os tubarões estão em extinção pelo único fato de eles não devorarem mais humanos? É sério. Há quanto tempo você não vê na TV uma notícia de um tubarão que matou uma pessoa? Agora na televisão só passam comerciais de restaurantes fast-food e bacon. É bacon pra tudo quanto é lado. Eu não aguento mais. E de que vale todos esses comerciais se eu sou vegetariano? E, Nancy, você sabia que os vegetarianos vivem um terço a mais que os carnívoros. Pra valer! É verdade. Mas, agora, me responda essa pergunta: De que vale os tubarões não devorarem mais humanos e eu ser vegetariano se um meteoro enorme está vindo em direção à Terra? Por favor, Nancy, me responda, estou ficando muito atormentado com isso. Muito atormentado mesmo.

Nancy tentou achar as palavras certas, mas nem se quer conseguiu responder.

“Você é muito lerda, Nancy. Como você pode estar na linha de ajuda? Com certeza você não conseguirá se salvar quando o meteoro colidir com a Terra. E quer saber? Foda-se tudo isso! Eu vou fazer uma fogueira, ficar de frente ao lago, tomar uma cerveja e esperar o meteoro. Tchau!”

OLÁ, VIOLÊNCIA

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São seis e trinta da manhã. A campainha está tocando. Alguém bate na porta da minha casa sem parar. Porra! São seis e meia da manhã. Esse é o horário que estou me aprontando para ir pro trabalho. Estou escovando os dentes. Já vou atender. Será que ninguém tem mais paciência e educação nesse mundo? Eu não me importo. Continuo escovando de trás pra frente, de frente pra trás, nas laterais. Pego um pouco d’água da torneira e misturo com a pasta de dente. Cuspo. A campainha ainda está tocando. Triiiiiiim! Triiiiiiim! Alguém ainda continua batendo na porta, e cada vez fica mais intenso, forte. Perco a paciência e vou atender.

Destranco. Giro a maçaneta. Abro a porta.

Bum! Levo um soco bem no meio da cara. Direto no nariz, para ser mais específico. O sangue escorre e vai direto pra minha boca, pra minha camiseta. Legal! Agora vou ter que tomar outro banho e escovar novamente os dentes pra ir pro trabalho.  Paro de pensar nisso, caso contrário vou ficar puto da vida! Tento enxergar quem foi que me bateu, mas minha visão ainda está muito turva, não consigo assimilar nada.

Ouço uma voz.

“Bom dia, imbecil”, é Ana Júlia. Reconheço a voz. Ela me dá mais um soco e vai embora. Só escuto os passos dela indo.

Que droga! Estou todo fodido. Nunca pensei que uma mulher pudesse fazer tanto estrago com um homem. Meu nariz está doendo muito. Será que quebrou? Será que preciso ir ao médico? Será que o sangue e a dor vão continuar por muito tempo?

Se sim, tudo bem, eu acho que é natural. Afinal, eu também fiz um baita estrago na vida dela.

CHARLOTTE

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Estou apaixonado por Charlotte! E descrever Charlotte em palavras parece algo impossível de se fazer. Eu só fico aqui pensando e pensando e pensando, mas não consigo encontrar nada que me diga como alguém pode ser tão perfeita. É sério. Quando olho pra ela fico sem reação e completamente hipnotizado. Ela parece ser um anjo caído do céu. Seus cabelos são dourados, seus lábios são vermelhos e sua beleza divina parece ir muito mais além dos padrões. É linda. Simplesmente linda. Até mesmo o jeito dela é impressionante, único, peculiar. Ela é autêntica em todos os sentidos.

Agora, se eu pudesse ir mais a fundo com as palavras, diria que Charlotte é o tipo de garota que entra na sua vida sem pedir permissão. Ela aparece e vai te levando com sua voz doce até você se perder em pensamentos por ela. Mas não se engane. Ela não é tão doce assim. Charlotte é aquela garota que consegue cativar milhares de pessoas ao mesmo tempo e que consegue ser o centro das atenções quando bem entender, mas assim que ela mudar de ideia, ela desaparece, vai embora, some, não se importa. E então, quando você está só, a imagem do anjo ainda fica vagando em sua mente e apertando o seu coração.

Charlotte é assim. Impetuosa, descontraída, independente, surpreendente. Mas não adianta continuar. Descrever Charlotte em palavras é mesmo algo impossível de se fazer.

CARNEIRO

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Se você cruzasse com Marco Aurélio na rua com certeza acharia que ele era um homem normal, igual a maioria das pessoas que você vê passando por aí. Cabelos penteados, altura mediana e com o peso apenas três quilos acima do que ele gostaria. Tudo dentro dos padrões, entende? De segunda a sexta, trabalhava como supervisor de vendas numa fábrica de tintas e, aos sábados e domingos, saía com sua noiva para restaurantes e cinema ou então pra tomar um chopp com os amigos.

Normal. Normal. Mas não tão normal assim.

A verdade oculta de Marco Aurélio é que ele cultivava um hábito muito estranho (“bizarro” seria a palavra certa). Todos os dias, sempre que saía do trabalho, ele ficava por uma hora perto do cruzamento mais perigoso da cidade esperando por um acidente de carro, uma vítima fatal, uma tragédia gravíssima. É lógico que na maioria das vezes nada acontecia. Ele ficava sentado esperando e esperando e esperando e voltava para a casa sem nada, com as mãos abanando. Mas em certas ocasiões, quando o destino lhe sorria e motoristas de carros, motos e ônibus se acidentavam, Marco Aurélio ficava feliz.

Isso acontecia porque ele adorava jogar o Jogo do Bicho, e sempre que jogava, apostava o número da placa do veículo acidentado. O acidente poderia ocorrer e a vítima estar a beira da morte, precisando de ajuda imediata, não importava, Marco Aurélio pegava a placa e saía correndo atrás do bicheiro sem prestar o mínimo de socorro.

Até que certo dia, saindo de uma reunião do trabalho e fazendo o mesmo caminho de sempre, Marco Aurélio não percebeu o sinal vermelho e cruzou a rua. Um caminhão Ford Cargo 185 não conseguiu frear. Colidiu direto com o carro de Marco Aurélio e ele não resistiu. Morreu na hora.

A placa do carro dele era 5825. E naquele dia o resultado foi Carneiro.

NEUTRALIDADE EXISTENCIAL

CRISEAcordei com um sentimento estranho naquela manhã de domingo. Não sei dizer ao certo o que era, mas se eu pudesse colocar em palavras diria que estava com algum tipo de neutralidade existencial.

De alguma forma muito esquisita, eu não conseguia me sentir vivo. Era como se eu fosse um fantasma que não tinha sentimentos, desejos ou simples objetivos. Eu comia, bebia e também não sentia o gosto das coisas.  Tentava enxergar cores, mas via tudo em preto e branco. Comecei a me questionar se isso era normal, se eu estava doente e com algum tipo de distúrbio.

De qualquer forma, eu não encontraria as respostas dentro de casa. Coloquei qualquer roupa e fui pra rua. O tempo não ajudou. O céu estava escuro, as nuvens carregadas e os primeiros pingos da chuva começavam a cair. Saí mesmo assim, sem guarda-chuva. Andei, andei e nada mudou. Eu ia ao desencontro. As pessoas passavam por mim e não me notavam, a chuva caia e não me molhava, meu coração estava vazio e nem se quer batia. Os caminhos ficavam longos e sempre mais longos. Quando me dei conta, não sabia mais voltar pra casa.

Gritei.

Ninguém escutou.

Eu estava morto.

CAFÉ, EUROPA E ALGUMAS MULHERES

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Fiquei de encontrar com Viviane numa cafeteria que tinha ao lado da estação de metrô, aqui perto de casa. Havia tempo que não nos víamos e eu estava ansioso para reencontrá-la. Queria saber de suas histórias, queria contar as minhas e saber como foi o seu intercâmbio pela Europa. Na verdade mesmo, queria apenas vê-la. Ou na melhor das hipóteses, beijá-la e levá-la pra minha casa da mesma forma que fiz pouco antes de ela ir viajar.

Cheguei lá no horário combinado. 18h30. Por sorte, o lugar estava quase vazio, então aproveitei a chance e fui sentar na parte mais aconchegante da cafeteria, onde uma poltrona marrom encostada na parede com uma luz baixa formava um clima romântico e propício para o que eu estava procurando.

“Você quer fazer o seu pedido?”, me perguntou a barista com delicadeza. Olhei para ela. Nunca a tinha visto por ali. Devia ter sido contratada há pouco tempo. Era bonita. Tinha cabelos curtinhos e pernas incríveis.

“Estou esperando uma amiga”, falei. Nem um segundo se passou e eu pensei melhor. “Mas, por favor, você poderia me trazer um café preto?”

A barista afirmou com a cabeça e o café chegou antes do esperado. Coloquei metade de um saquinho de açúcar e dei um gole. Ótimo! Café forte é bem melhor que café meloso. Olhei novamente para a barista. Nossa! Como eu adoro garotas de cabelos curtos.

“Ei”, a chamei quando ela passou por mim. “Você é nova por aqui, não é?!”

“Sim… Ou melhor, não”, ela respondeu. “Na verdade, minha mãe é dona da cafeteria. Só vim aqui dar uma ajuda a ela.”

Eu já havia batido um papo com mãe dela, a Sra. Dora. Por sinal, uma mulher elegante e bem legal. Mas mais legal ainda era sua filha. Nós conversamos um pouco e descobri que seu nome era Marina, tinha vinte três anos, fazia pós graduação em alguma coisa relacionada a business e, assim como Viviane, também tinha ido para a Europa fazer intercâmbio. Fiquei pensando comigo mesmo: o que aquele continente tinha que atraia tantas mulheres bonitas? 

Com certeza era o café. Com certeza.

CAMILLE

RED HAIR

Camille é uma dessas ruivas que você se apaixona a primeira vista. Com toda a graça de uma menina e todo o corpo de uma mulher, ela consegue ser ao mesmo tempo meiga e infinitamente sensual.  Parece impossível uma coisa dessas, eu sei, mas ela realmente consegue. É a existência concreta da garota perfeita.

Sem exagerar, posso dizer convicto que ela é toda alinhada. Seu corpo é um caminho profano, seus lábios são um pedaço do paraíso e sua beleza é indiscutível. A arquitetura que envolve seus traços e suas curvas são feitos de mestre. O conjunto inteiro é de tirar o fôlego, não há como negar.  E ainda assim, com tantos detalhes, a parte que mais me chama a atenção são os olhos.

Os olhos de Camille são daqueles que estão sempre olhando lá na frente, bem longe. Misteriosos, não deixam desvendar os pensamentos que ela guarda por dentro. Eles brilham e brilham e brilham e continuam brilhando como diamantes até você se perder, até você ficar completamente hipnotizado. E quando você se dá conta e tenta voltar atrás… Esquece! Não tem mais volta. Camille já te seduziu e partiu seu coração.

A ODISSEIA DO CAPITÃO

ImageDescendo até o final da Rua dos Almirantes é possível encontrar a Loja da Baleia. Se trata de uma loja de artesanatos onde trabalha um senhor simples e muito carismático cujo nome ninguém sabe, mas onde muitos o conhecem como Capitão.

Fazendo jus ao seu apelido, ele possui olhos claros, expressões vivas, sorriso amarelo e uma barba branca e volumosa. Além de tudo isso, uma grande aptidão para contar histórias. E assim, todos os dias, ele conta para um de seus clientes como foi sua experiência de ter dado a volta ao mundo.

De acordo com suas palavras, ele tinha apenas trinta anos quando realizou sua aventura e desafiou os mares. Em 1961, totalmente sozinho, com um simples barco de pesca que roubou de seu pai, cruzou o Atlântico, passou pelo Índico e conheceu o Pacífico. Tudo nas mais rústicas condições de sobrevivência. Ele passou fome, se alimentou com o que tinha, enfrentou chuvas pesadas e tempestades cruéis. Ficou a beira da morte, lutando contra seu corpo que já parecia rendido há tempos. Mas ele não desistiu. Continuou viajando anos pelo incerto e pela ameaça.

Com a marca dessa trajetória árdua em suas mãos, o Capitão tem orgulho de contar sua história para os visitantes de sua loja. Ele proclama suas palavras com paixão, quase lacrimejando seus olhos toda vez que fala sobre isso.

Os clientes, por outro lado, acham que o Capitão já está velho demais. Acham que suas histórias não passam de invenções criadas para dar algum significado em sua vida monótona. Nunca um simples barco de pesca suportaria as traições do oceano. Nunca!

Mas “nunca” é uma palavra difícil de dizer. Pois todos os dias, quando o último cliente vai embora, o Capitão recolhe de sua vitrine um desgastado álbum de fotos e relembra todos os momentos que passou ao redor do mundo. São milhares de imagens congeladas. Uma verdadeira odisseia de um velho Capitão.

CATÁSTROFE‏

Catástrofe

Nunca achei que iria me apaixonar. De verdade. Ao meu ver, seria para sempre esse cara frio, racional e que se limita toda vez está indo a caminho de um relacionamento mais sério. É como um bloqueio intencional, sabe? Nada de vínculos e nada de romances duradouros. E era assim que eu me imaginava, um auto-suficiente vivendo um dia após o outro.

Mas então você apareceu, e como um furacão você entrou na minha vida e me bagunçou. Chegou com seu jeito meigo, sua voz doce e com esse seu olhar que é impossível de desviar. Que estranho! Não sei o que aconteceu comigo. De uma hora pra outra senti que só precisava de você e isso era o bastante. A vontade de segurar suas mãos, tocar os seus lábios e sentir sua pele era inevitável. Eu sabia que não tinha mais volta.

Catástrofe! Por que fui me envolver com você, afinal?

As coisas estavam indo tão bem do jeito que estavam e agora nem sei mais quem eu sou. Quando me olho no espelho, o reflexo parece ser de outra pessoa. Tenho olhos brilhando, um sorriso verdadeiro. Mas eu não sou assim. Sei que não. Eu sou aquele cara independente que quer ficar sozinho e que tem o coração gelado. Então, por favor, deixe-me ser quem eu era e vá embora. Me deixe só.

Ou então não. Espera!

Espera e fica mais um pouco.

GATOS

GatosNunca gostei de gatos. Não sinto afeto por esses bichos. Para mim, eles são animais indomesticáveis, traiçoeiros, independentes. E não importa o quanto carinho você dê,  eles sempre vão te dar as costas quando você não for mais conveniente ou quando aparecer alguma coisa melhor.

Eles ronronam, pedem por ternura e até te dão mordidas de amor de vez em quando, mas no fundo não estão nem aí. Eles estão pouco se lixando pra você. Não se preocupam com os seus sentimentos ou com os sentimentos de quaisquer outras pessoas. São felinos e são o epicentro do universo. Eles querem o que querem, na hora em que querem. O resto não tem a menor importância.

Basta analisar. O comportamento do gato entrega sua índole.

Experimente deixar o portão da sua casa aberto para ver o que acontece… O gato corre, foge, vai parar do outro lado do mundo se for capaz. E aí ele procura outros muros, outras comidas, outras gatas. Procura novas formas de liberdade. Procura tudo aquilo que ainda não experimentou.

Os gatos são assim. Não há o que fazer para mudar isso. E por serem tão parecidos comigo, nunca vou gostar de gatos.

ANTES QUE O MUNDO ACABE

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Roberto saiu do trabalho naquela sexta-feira e seguiu para curtir o happy hour no Bar do Armazém. Ele estava cansando, com dor de cabeça. Tinha ficado o dia inteiro encarando documentos fiscais e só queria tomar uma cerveja gelada para relaxar. Entrou no bar, pegou uma Brahma e sentou sozinho numa mesa próxima para apreciar sua bebida.

Deu um gole. Deu outro. Antes de dar o terceiro, avistou uma garota incrível saindo do banheiro e fixou seu olhar nela.

De traços exóticos e corpo divinamente esculpido, Roberto a analisou por completo. Ela usava óculos de aros grossos, salto alto e um vestido azul que realçava muito bem suas pernas. Ao que tudo aparentava, ela também devia estar sozinha. Roberto deu o terceiro gole em sua cerveja e se levantou para tentar uma aproximação.

“Olá”, ele falou ao chegar perto da garota. “Poderia saber qual é o seu nome?”

Ela o encarou de forma estranha. Queria algo diferente. Estava cansada de ser abordada sempre da mesma forma. Então, sem dizer absolutamente nada, deu as costas e foi pegar a sua bebida lá no bar.

Roberto, mesmo sem jeito e achando muito rude a atitude daquela garota, voltou para a sua mesa e continuou bebericando sua cerveja. Tomou uma garrafa inteira. Pediu outra e continuou bebendo. Realmente a cerveja gelada era capaz de espantar todos os seus aborrecimentos. E daí que tinha levado um fora da garota? Pelo menos agora estava com a cabeça tranquila.

Ou não, pois a garota sem nome veio andando rápida e decididamente em sua direção.

“Olha aqui”, ela falou sem pudor. “Falam que hoje é o fim do mundo. Dia 21 de dezembro de 2012, certo? Então, se vai mesmo acabar ou não, eu nem quero saber. Também não quero saber o seu nome e não quero que você saiba o meu. Por mim está tudo bem do jeito que está. Só paga logo essa cerveja e vamos lá pra minha casa. Eu sei que você quer ir pra cama comigo. Não vamos ficar perdendo tempo com papo furado.”

Roberto não acreditou. Só podia ser o fim do mundo.

NICOTINA

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Declarado viciado em nicotina, Ângelo fumava em média três maços de cigarro por dia. Um de manhã, um de tarde e outro de noite. Três maços, um atrás do outro. Seu preferido era o bom e velho Marlborão. Ele não aguentava ficar sem sentir o filtro em sua boca rachada.

Seu vicio já vinha sendo cultivado há tempos. Desde que tinha quinze anos. E para o horror de seus amigos e familiares, Ângelo não sentia remorso ou a mínima intenção de parar. Seu cigarrinho diário era mais que um hábito, fazia parte dele. Se ficasse dez minutos sem expelir fumaça já começava a acelerar, a ficar inquieto e parecia que ia ter um colapso nervoso. Entretanto, esses sintomas não eram os mais incômodos.

A situação de Ângelo preocupou de verdade quando, num desses churrascos de domingo onde estão todos os amigos reunidos, Ângelo tossiu e expeliu sangue. Sorte a dele caso fosse discreto. Mas não. Era impossível disfarçar o problema que estava acontecendo pelo fumo incessante. A cada tosse, sangue e mais sangue sujavam suas mãos.

Ângelo fitou seus amigos. Eles o fitaram de volta com um aviso de obrigação em seus olhares: “Pare de fumar” e “Vá ao médico!”

Para a surpresa de todos, ele obedeceu o segundo conselho. A tosse com sangue podia ter sido um alarme falso ou qualquer outra coisa insignificante. De qualquer forma, ele realmente queria saber o que estava acontecendo. Estava interessado em seu estado de saúde e, se possível, como poderia levar uma vida sem nicotina. No dia seguinte já havia marcado seus exames, tirado radiografias e fumado uns três cigarros a menos.

Voltou ao hospital dias depois, pronto para saber o resultado. Mas então, quando entrou na sala, o rosto do médico já denunciava o diagnóstico.

Ângelo preferiu não ouvir a notícia. Acendeu um cigarro e saiu pela porta.

BOA NOITE, ALICE

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Já estava amanhecendo quando saí da casa dela e fui andando para a minha. O céu estava claro, meio roxo. As luzes dos postes ainda permaneciam acesas, iluminando a noite que não existia mais. Eu estava vivo. Me sentia bem. Há tempos que não tinha uma noite daquelas. E só de pensar que tudo começou numa conversa sobre os Rolling Stones e alguns filmes de tempos mais antigos… Quem diria?

O nome dela era Alice. Cabelos loiros, olhos claros, um rosto delicado e pensamentos nem tanto. O tipo de garota que um homem precisa achar quando está pensando num relacionamento sério. Linda, corpo curvilíneo, e ainda possuía opiniões fortes e um alto senso crítico. É difícil encontrar uma dessas hoje em dia. Mas ela estava ali… Duas mesas à frente da minha, conversando com mais três amigas dentro daquele bar e rasgando de vez em quando seu olhar na minha direção.

Eu a olhava de volta. Sutilmente. Não queria entregar que sua beleza tinha me seduzido assim tão rápido. Entornava minha dose de vodca e tentava encontrar seu ponto fraco pelo olhar. Não dava para saber. Ela me bloqueava. Possuía algum mistério naqueles olhos verdes, alguma coisa que eu não sabia dizer o que, alguma coisa que eu precisava descobrir.

Ela me deu a deixa. Fitou os meus olhos, olhou para baixo com timidez e vacilou com um leve sorriso. Pediu um cigarro para uma de suas amigas e saiu para a área de fumantes, sozinha. Não perdi tempo. Arranquei um cigarro do primeiro maço que vi jogado em cima da mesa, coloquei na boca e fui logo saindo.

“Porra”, reclamou um dos meus camaradas. “Você só pega os meus cigarros. Quando vai tomar vergonha na cara e comprar o teu maço?”

Não respondi. Apenas segui os passos daquela garota e fui lá fora fumar um cigarro que não era meu.

A área de fumantes estava cheia. Eram bêbados, sóbrios, turma de amigos, turma de amigas, corações partidos. Eu também era um coração partido. Eu era e não queria mais ser. Queria ela e queria naquele momento. O cigarro é sempre uma ponte para puxar assunto, e graças ao vício do meu amigo eu tinha essa oportunidade. Fui lá falar com ela.

“Você tem fogo?”, perguntei, e eu já fiquei imaginando outro sentido para aquela frase.

Ela sorriu. Olhou rapidamente para mim e me entregou um isqueiro cinza. Acendi meu cigarro. Olhei-a de cima a baixo. Era magrinha, do jeito que eu gosto. Usava um tênis branco e um vestido de botões. Fiquei pensando o que esse vestido escondia por dentro.

“Então você gosta de Rolling Stones”, ela cortou minha imaginação maliciosa. Me questionei como ela sabia daquilo, mas antes que eu pudesse questiona-la lembrei que estava usando uma camiseta da banda.

“Minha banda preferida. Você também gosta?”

Ela afirmou com a cabeça. Eu falei que já tinha visto um show deles ao vivo e isso a empolgou. Nós conversamos mais um pouco sobre música e depois o assunto engrenou nos filmes. Eu perguntei o seu nome. Ela perguntou o meu. Falamos sobre trabalho, esportes e até relacionamentos. Nossos cigarros acabaram, nós estávamos sem bebida. Isso não importava. A conversa estava tão boa que não precisávamos de outra coisa para acompanhar. Só eu e ela. Eu, ela e muitas outras pessoas que estavam no bar. O tempo passou e nós não percebemos. Eu estava completamente na dela. Melhor que uma delicinha daquelas, somente uma delicinha que sabe conversar.

Alice sabia. Mas acho que naquela hora ela já não estava tão interessada na conversa.

“Vem cá”, ela cortou. “O que você acha de irmos lá pra casa?”

Voltamos para dentro do bar para pagar as nossas contas. Nem nos despedimos de nossos amigos. Chamamos um táxi, fomos pra casa dela e o resto são memórias tão boas que se tornariam superficiais caso eu contasse. Enfim, só espero que da próxima vez o céu ainda esteja da mesma cor e os postes ainda continuem acesos.